São Carlos Borromeo

Marco Bala

17/05/2007

O ano é 1927. O ?Correio de São Carlos? (n.6.904) de 27 de março publicou em primeira página o texto ?São Carlos Borromeo? de Bento de Abreu Sampaio Vidal (1872-1948) transcrito a seguir:

?(..) A catedral de Milão é uma das obras primas da Igreja católica. Ao lado do grandioso, do monumental, que caracterizam as antigas construções, há a riqueza, a arte, a despertarem a nossa admiração.

Depois de percorrermos todo o templo e de visitarmos a sala dos Tesouros,onde estão guardados os objetos preciosos, pertencentes à Igreja, pedimos para visitar a capela onde repousa o corpo embalsamado de São Carlos Borromeo, antigo arcebispo de Milão e padroeiro de nossa cidade.

O padre que serve de guia, abriu uma porta de grade de ferro e em seguida outra porta e, por uma escada, descemos ao subterrâneo onde está a capela que fica em baixo do altar-mor da catedral. Tocando o padre um botão, iluminou-se a capela que começamos a admirar e a nossa admiração foi num crescendo à medida que observamos os detalhes e o guia no-los explicava. É toda revestida de bronze, prata e ouro, ostentando custosos lavores de arte, predominando a cor fosca, velha. Ao fundo, o grande caixão mortuário de bronze, com trabalhos de arte; o guia move uma manivela e esta tampa de bronze ergue-se e então aparece em plena luz o corpo embalsamado de São Carlos Borromeo encerrado em caixão de cristal e filetes de ouro. O corpo embalsamado está com as vestes de arcebispo e a mitra na cabeça. As jóias, tais como anel, crucifixo, pendente do caixão, a mitra, etc. são de pedras preciosas de grande valor e foram mandadas, entre outros, pelo rei da Espanha, rei da França, imperatriz da Áustria, etc. Somente o crucifixo que pende sobre o seu peito, enviado pela imperatriz da Áustria, é avaliado em mil contos de réis.

Aparecem somente o rosto e as mãos de São Carlos. O rosto muito parecido com a imagem que existe no atar-mor da nossa Igreja. Tem hoje a cor amarelada, nariz grande e aquilino, rosto emagrecido e olhos grandes..

Pouca gente sabe hoje,quem foi São Carlos Borromeo e a influência extraordinária que exerceu sobre a Igreja, sobre os costumes e sobre a civilização no mundo. Vamos dar algumas notas tiradas do livro de Archille Mauri. Nasceu Carlos a 2 de outubro de 1538 no castelo de Arona, ao sul do lago Maggiore, filho do Conde Giberto Borromeo da marquesa Margarida de Médicis, duma família que já notável na história pátria, devia ainda receber maior lustre. Foi educado em Milão na casa paterna, com o seu irmão Frederico. Aos dezesseis anos, matriculou-se na Universidade Canônica e Civil do Pavia, que tinha os mais notáveis professores do tempo. A morte de seu pai obrigou-o a interromper os estudos e a cuidar do imenso patrimônio que, a título feudal, possuía sua família em Arona. Continuando depois os estudos, foi doutorado em leis civis e canônicas em 1559, com 22 anos de idade.

Nessa ocasião seu tio materno o cardeal João Ângelo de Medicis, irmão do célebre marquês de Melegnano, foi eleito Papa com o nome de Pio IV. O novo Papa, no dia 31 de janeiro de 1569, nomeou-o cardeal e arcebispo de Milão e chamou-o para Roma, onde ele foi de fato o braço e a cabeça da direção do mundo católico, efetuando as maiores reformas e organizações, desde os grandes aquedutos e estradas em Roma até a política das grandes nações. O prestígio de Carlos vinha-lhe não só do grande valor de sua família, aparentada comas casas reinantes, sua imensa riqueza, grande inteligência e cultura, como também de sua vida simples, modesta, sem vaidades e toda devotada ao bem da Igreja e da Humanidade.

O Papa deu-lhe a suprema autoridade e dignidade no palácio. Fê-lo chefe de Consulta, Protetor de muitas ordens religiosas e mais Sumo Penitenciário e Legado nas Províncias de Romagna, Marca, Anconitana e de Bologna.

O seu trabalho mais notável foi a realização do Concílio de Trento, iniciado e adiado por diversos Papas, no momento de grande crise para a Igreja Católica, em luta com Lutero, Calvino, os Huguenotes em França, etc. As reformas realizadas deram mais força, e prestígio à Igreja. Dos sues grandes trabalhos realizados em Roma, no grande cenário de onde dirigiu o mundo com extraordinária inteligência e visão das coisas políticas e sociais, provieram muitos aperfeiçoamentos da civilização que gozamos hoje.

O seu desejo, porém, era voltar a Milão e tomar conta da sua igreja, ao que sempre se opunha o Papa, velho e enfermo, até que conseguiu fazendo a entrada Pontifical na Catedral de Milão, em 23 de setembro de 1565. Foi um delírio na cidade a vista do novo arcebispo de 26 anos de idade, milanês, sobrinho do Pontífice e já notável, por tantas grandes obras.

Morto o Papa, Carlos Borromeo foi a Roma tomar parte no conclave e, por sua influência, foi eleito Papa, Pio V.

Desde essa data, Carlos Borromeu dedicou-se inteiramente à sua diocese fazendo obra admirável de levantar o espírito religioso do povo, fundando colégios e institutos para órfãos, cuidou da instrução do Clero. Difundiu a instrução primária entre o povo, isto em todas a s cidades da sua diocese. Pessoalmente tudo dirigia, caminhando a pé e a cavalo, na neve, ao sol e ao vento, visitando igreja por igreja,, escola por escola. Renunciou a todos os cargos remunerados e pensões que foram dadas a padres beneméritos que recomendou, assim como aplicados a colégios e instituições pias. Vendeu o principado de Oria no reino de Nápoles, vendeu três galeras armadas, aplicando todo o dinheiro em obras pias. Ele, pessoalmente, levou sempre uma vida sem nenhum conforto e com uma sobriedade de vida de convento. Em 1576, Milão foi invadida pelo flagelo da peste. Lendo-se o que se escreveu a respeito, não sabemos o que nos impressiona mais, se o horror da peste ou a ação admirável de Carlos Borromeo, que concentrou na sua pessoa todo o trabalho, direção administrativa, distribuição de remédios, sacramentos, socorros, consolação, benção, nas ruas, nos hospitais, a pé e a cavalo, causando admiração a sua coragem e sua caridade.

Possuía escolhida biblioteca, vasta cultura, falava com facilidade o latim e era extraordinário orador. Dedicava à oratória grande atenção.Procurava sempre influir para maior instrução de todas as classes, era assediado por todos os escritores, pintores, escultores, músicos, artistas de toda a espécie que o procuravam e, a todos animava e protegia. Dias antes de morrer passou por Arona, sua terra natal e foi fundar um instituto de ensino em Ascona, à margem do lago. O trem da Itália à Suíça, partindo de Milão,passa por Arona, sua terra natal e margeia cerca de cem quilômetros o lago Maggiore, onde existem as ilhas Borromeo. Todo esse imenso território pertenceu por direito feudal à sua família. No monte mais alto, em frente à cidade vê-se uma estátua colossal, tão grande que mesmo de longe se parece grande, e Carlos Borromeo, mandada erigir pelo povo. Durante muito tempo vê-se a estátua da estrada de ferro. A região e o lago Maggiore são dos mais belos que existem no mundo.

Carlos Borromeo atacado de febre palustre tomou a barca do lago, viajou durante a noite até Ascona, realizou a fundação de um colégio e voltou para Milão, não tendo mais forças para ir ao oratório do palácio como desejava, sendo levado para a cama onde faleceu horas depois. Faleceu com 46 anos de idade em 1584, foi canonizado em 1.º de Novembro de 1610 e foi decretado o dia 4 de Novembro para sua comemoração em todo o mundo católico.
Milão, maio, 1926 (..)?.