Um dos edifícios de grande significação para a história e memória de São Carlos é o ?Hotel Accácio?, imponente construção situada na esquina da Avenida São Carlos com a Rua 7 de Setembro. Transcrevemos a seguir lavra de João Neve
HOTEL ACCÁCIO: RECORDAÇÃO DO PASSADO..
?(..) No alvorecer deste século, a cidade de São Carlos, ainda pequena e provinciana, já dava, com firmeza os primeiros passos para o seu progresso maior. A exuberância das lavouras de café e o desenvolvimento da pecuária neste Município, já proporcionavam à cidade riqueza e prestígio, até que mais tarde, depois da grande crise de 1929, a cultura cafeeira deixou de ser a base da economia local, dando lugar a outras atividades agrícolas. Por outro lado, as poucas fábricas então aqui existentes foram se multiplicando, até se transformarem no importante e diversificado parque industrial que conhecemos.
No fim do século passado as casa de hospedagem existentes eram poucas e modestas, e só mais tarde foram aparecendo melhores hotéis, como o Hotel Accácio, o Hotel Henrique ( hoje hotel Marques ), fundado pelo sr Henrique Gregori e o Hotel Toscano, todos em pleno funcionamento, sendo ainda hoje a rede hoteleira local completada por modernos estabelecimentos como os hotéis Vila Rica, Caiçara, Estância Suíça, fazenda Hotel, Malibu e Indaiá.
O Hotel Accácio, objeto desta crônica, completou, agora, no dia 2 de junho, 80 anos [1900]. Foram seus fundadores a sra Eugênia Accácio, viúva do sr Antonio Dume Accácio e seu filho Antonio Accácio, já falecidos. Antes de dizermos algo sobre o Hotel, julgamos oportuno traçar, ligeiramente, a personalidade de Antonio Accácio - o major Accácio [1875-1945, imigrante português], como era conhecido - que o governou nesta cidade de alto conceito e estima, pela nobreza do seu caráter, cavalheirismo e bondade. Embora não fosse são-carlense de nascimento, amava São Carlos como se fosse a sua própria terra natal, tendo sempre o maior interesse pelo progresso do local. No princípio deste século participou de um grupo constituído dos srs Argeu Vinhas [1871-1933], Silvério Ignarra Sobrinho [1872-1946] e outros, que adquiriram uma fábrica de tecidos no Rio de janeiro e a transferiram para São Carlos Essa indústria foi instalada à Rua José Bonifácio, no velho prédio situado em frente à Lápis Johann Faber. Mais tarde [1914] foi transferida para outra organização, dirigida pelos srs José Gonçalves Carneiro [tio do cronista] e Piero Roversi.
Outro empreendimento ao qual se associou o Major Accácio foi a compra do Teatro São Carlos, então pertencente a pessoa que residia em Jahu.
Depois de ter o prédio passado por uma reforma total, foi ali instalado um cinema, sendo gerente o Major Accácio e caixa o sr Dario Vaz. Além do cinema, os empresários traziam com freqüência famosas companhias de operetas e variedades, que atraiam para aquela casa de diversões enorme público, daqui e das cidades vizinhas. O Teatro São Carlos foi vendido, depois, para a Empresa Teatral Paulista de propriedade do sr Sebastião de Abreu Sampaio [?-1930], que durante muitos anos possuiu uma vasta rede de cinemas em numerosas e importantes cidades paulistas [em Minas Gerais e Goiás]. Ao ensejo do 80.o aniversário do Hotel Accácio, deliberamos procurar o sr Olivio Accácio, que nos ofereceu algumas informações sobre o início das atividades hoteleiras de sua família em São Carlos. Em 2 de junho de 1900 foi adquirido pela sra Eugênia Accácio, viúva do sr Antonio Accácio e seu filho Antonio Accácio o hotel Adelaide, que existia na Rua Conde do Pinhal, ao qual foi dada a denominação de Hotel Accácio. Alguma tempo depois compraram um pequeno prédio situado à Rua São Carlos (hoje Avenida São Carlos), esquina com a Rua 7 de Setembro, para onde se transferiu o Hotel, depois de ter passado o prédio por uma reforma.
Em 1919 assumiu o comando do estabelecimento o sr Olívio Accácio, tendo sido procurador de toda a família. Sob a sua direção foi empreendida nova e total reforma no prédio, passando o hotel a dispor de 50 quartos, todos dotados de água encanada, de salão de visitas, de amplo salão de refeições e demais dependências, que o tornaram confortável para a sua época. Sua numerosa clientela provinha da capital e de todos os pontos do Estado. Além da hospitalidade que sabia dispensar era conhecido pela sua excelente cozinha e pelas variedades de vinhos estrangeiros, das melhores procedências, que atendiam a todos as preferências.
Lembrou o nosso interlocutor que pelo Hotel Accácio, naqueles tempos já longínquos, foram preparados os melhores banquetes que aqui se realizaram. Para esse fim, esteve sempre bem equipado com louças, talheres e cristais da Inglaterra. Olívio Accácio recordou alguns desses banquetes realizados naquele estabelecimento hoteleiro e oferecidos: em 1931 ao Coronel Mendonça Lima, então Secretário da Viação; em 1932 ao sr Salgado Filho, Ministro do Trabalho; em 1934 a próceres do Partido Constitucionalista, entre os quais se encontravam o dr Luiz de Toledo Pizza Sobrinho, o do Benedito Montenegro, o deputado Thiago Marzagão e outros; em 2 de fevereiro de 1936 ao governador de São Paulo dr Armando de Salles Oliveira, banquete esse servido no São Carlos Tenis Clube; em 1943 ao jornalista Assis Chateaubriand, por ocasião de uma concentração aqui promovida pelos ? Diários Associados ?; em 1944 ao dr Jayme Cintra, então Diretor-Inspetor Geral da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e dr Vail Chaves, diretor da Empresa Elétrica de Rio Claro, pela cooperação que deram a São Carlos no sentido de receber um suprimento de energia elétrica da Light, por intermédio da paulista, a fim de minorar a crise de energia que afetava profundamente esta cidade; em 1948 em homenagem ao exmo e revmo sr dom Ruy Serra, pela sua posse na Catedral Episcopal de São Carlos. Olívio Accácio recordou, ainda, as grandes manobras de quadros oficiais do Exército, para as quais São Carlos e região foram escolhidas em 1929. Essas manobras estiveram sob comando do general Hastimphilo de Moura, comandante da 2.a Região Militar, que teve o seu Quartel General instalado no Casarão Mattos, situado no local onde hoje está o edifício do fórum da Comarca. Participaram das manobras os generais Mallam D?Angrogne, Candido Mariante e Firmino Borba, e algumas centenas de oficiais, tendo os exercícios sido supervisionados pelo General Spire, então chefe da Missão Francesa no Brasil.
Para agasalhar todos esses oficiais as dependências do Hotel, já em parte ocupadas pelos hóspedes habituais, não eram suficientes. Teve Olívio Accácio de alugar 3 casas na Rua Episcopal para abrigar parte dos novos hóspedes, tendo sido instalados numa delas telefones e outros serviços de comunicação. Nessa ocasião foi também hóspede do Hotel o general Alexandre Leal, Chefe do Estado Maior do Exército, que veio assistir a fase final das manobras.
Em 1934 teve Olívio Accácio a iniciativa de instalar na parte térrea do seu Hotel o restaurante ? Gruta Azul ?,que logo se tornou amplamente conhecido pelo ambiente distinto e agradável que oferecia, tendo sido freqüentado pela elite são-carlense. O seu serviço de cozinha alcançou alto renome, sendo elogiado pelo cantor Tito Schipa, e diretores da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que ali foram servidos, tendo estes declarados que a Gruta Azul era um restaurante digno dos melhores da Capital.
Ali realizaram-se também numerosos banquetes, oferecidos a ilustres personalidades políticas de São Paulo; ao dr Reginaldo Nunes, em 1935, por ocasião de sua partida para o Rio de Janeiro onde foi assumir, como representante de São Carlos, o cargo de Juiz da Câmara de Reajustamento Econômico; ao General Almério de Moura, comandante da 2.a Região Militar, que naquele mesmo ano aqui esteve; a alguns dirigentes do Partido Republicano Paulista e do Partido Constitucionalista e a muitos outras personalidades do relevo social e político.
Foi recordado, também, o grande banquete que os dirigentes da nossa cidade ofereceram em 1944, ao professor Archiliclínio dos Santos, secretário particular do sr Fernando Costa, então Interventor Federal neste Estado, ao professor Andronico de Mello, chefe do ensino
secundário e normal, a jornalistas paulistanos entre os quais se achavam os nossos conterrâneos Rubens de Amaral, da ? Folha de São Paulo ? e o dr Pedro Monteleone, um dos diretores de ?A Gazeta?. Esse banquete comemorou a instalação do curso colegial na nossa Escola ? Dr Álvaro Guião ? pelo qual muito trabalharam as autoridades municipais e todas as forças vivas da cidade.
Olívio Accácio, há alguns anos retiram da atividade hoteleira - o seu hotel está arrendado para outra firma - recordou, por último, ilustres personalidades que o Hotel Accácio hospedou. Um dos seus hóspedes mais freqüentes foi o dr Washington Luis Pereira de Souza [1870-1957], que foi presidente de São Paulo e da República [1926-1930]. Ele por aqui passava quando visitava sua fazenda em Dourado, pernoitando no Hotel para tomar, no dia seguinte, o trem da Douradense. Também foram hóspedes do estabelecimento o dr Altino Arantes e o dr Roberto Moreira, que foi chefe de polícia no governo Washington Luis. Todos eles aqui estiveram para tratar de assuntos políticos.
Ali se hospedaram, ainda, outros vultos do mais alto renome, na poesia e na música, entre os quais são lembrados Coelho Neto, Menotti Del Picchia, Sud Menucci, Raul de Pollilo, Agripino Grieco, Martins Fontes, Villa Lobos, Antonietta Rudge, Guimar Novaes, o cantor italiano Tito Schipa e o pianista polonês Arthur Rubinstein.
As atividades do tradicional Hotel Accácio, como acabamos de ver, abrangeram uma longa época, identificando-se com um largo período da história de São Carlos. Por esta razão, não quisemos deixar passar sem registro especial o 80.o aniversário de sua fundação (..)?