A crônica ?São Carlos de Antanhos? de Hugo Collin Ferreira consta do livro ? ? ( ) e tem águas do nicho urbano de São Carlos como tela de fundo.
?(..) No início do ano de 1934, minha família mudou-se para São Carlos, aonde meu pai veio para exercer a advocacia e, com oito anos de idade, iniciei meus estudos no Colégio Estadual Paulino Carlos, até hoje localizado na Praça Coronel Salles.
Essa escola era ladeada pelo prédio da atual Câmara Municipal, pelo então cone São Carlos, de propriedade de Rubens de Abreu Sampaio e sua família e pela Rua D. Alexandrina, onde se encontrava o Bar do Maneco e à esquerda, pela Rua Major José Inácio, a sorveteria Romanelli.
Meu pai assou a trabalhar com um advogado conhecido na cidade, Dr Reginaldo Nunes. Residíamos na Rua Marechal Deodoro, próximo ao seu centro.
Meu interesse sempre foi ligado com meninos que gostavam de pescar e passear pelas cercanias da cidade, principalmente onde corre o rio Gregório, o rio Feijão de hoje, que se juntavam para formar o Monjolinho.
Com o correr do tempo, no terceiro ano escolar comecei a pescar com dois amigos que marcaram a minha infância, o Ayrton e o Ary, filhos do escrivão do Cartório do 1.º Ofício da cidade, Auto de Carvalho, músico e compositor, e passei a freqüentar sua casa onde, no começo de quase todas as noites, ouvíamos as suaves e melodiosas músicas tocadas por ele, seu irmão Heitor, autor da música do Hino de São Carlos, e outros companheiros de cujos nomes não me recordo mais.
Eram horas gostosas que me trouxeram também o prazer pela música.
À tarde, saíamos para as pescarias, seguindo pela Rua 13 de Maio até a chácara de um senhor de nome Miguel Petroni, onde passava o rio Gregório.
Foi nesse pequeno riacho que comecei a pescar.
Usávamos varinhas de bambu de pontas bem finas,linhas de náilon ?Gallo?, importadas, pois não havia ainda as de fabricação nacional e com anzóis mosquitinhos, comprados, com o dinheiro que meu pai me dava de mesada, na Casa Piovesan, naquele tempo situada na Av São Carlos, entre a General Osório e a Jesuíno de Arruda.
Quando não dispúnhamos dessas linhas por não as encontrarmos à venda, conseguíamos crina de cavalo, as emendávamos com pequenos nós em suas extremidades até obtermos um metro e meio a dois,e as usávamos para a pesca.
Munidos de nossos apetrechos, dirigíamos ao Gregório, que naquele tempo não era poluído, e em seu pequeno curso d?água ladeado de mato e capim nas poças lá existentes, jogávamos nossos anzóis iscados com massinha de pão e minhocas e fisgávamos uns lambarizinhos, que colocávamos em garrafas contendo água.
De tardinha, ao pôr do sol, até o aproximar-se da noite, pescávamos nos poços na propriedade dos Felizardo e Lazzarini, onde alcançávamos uma nascente que formava um pequeno lago com abundância de lambaris. Daí, muitas vezes, fomos escorraçados pelos proprietários.
Começamos então a nos arrojar mais e pescávamos às vezes num riacho, onde hoje é o bairro Jardim Ricetti, que serpenteava por uma zona lamacenta, uma espécie de pântano, onde, por várias vezes, víamos cobras e bichos peçonhentos, dos quais fugíamos. Éramos crianças e ainda não tínhamos a noção do perigo que esses animais representavam.
Depois passamos a pescar a jusante do Gregório, na ponte onde corta os terrenos da atual Piscina Municipal, Praça dos Voluntários, terreno esse recebido em doação nos idos de 1940, pelo então Prefeito, Caros de Camargo Salles, homem de ilibada e incontestável honestidade, chamado pelos amigos de Carlito Salles.
Aos poucos íamos conquistando ?novos horizontes? e já nos atrevíamos a pescar embaixo da ponte que ladeava a parte dos fundos do Mercado Municipal.
Lá, eu e meus amigos, à noitinha após escurecer íamos pescar bagres nas poças repletas de pedras no fundo, à luz de lampiões de gás.
Esses fatos e imagens, que jamais esqueci hoje, já idoso, quando escrevo essas lembranças, fazem o meu coração pulsar, como se vivesse aqueles momentos da meninice, agora.
Então, devia ter uns 10 anos, quando comecei a pescar no rio do Monjolinho, primeiramente na confluência do Gregório, rio Feijão e Tijuco Preto, onde com uns meninos e amigos pescadores nos aventurávamos, enfrentando o mato cerrado, atrás dos lambaris, bagres e traíras.
Começamos então, a freqüentar dois lugares denominados Água Fria e Água Quente, a uns três quilômetros de São Carlos, nas proximidades de onde hoje se localiza o Matadouro Municipal, quando fazíamos melhores pescarias.
Ultrapassamos nossas fronteiras e continuamos nossas aventuras na fazenda Felicíssima, onde o rio era mais largo, encachoeirado, e os peixinho eram abundantes e de maior porte.
Já mais mocinho, fazíamos pescarias no rio Jacaré, agora, em companhia do Zuth Escobar e do Mineiro.
Viajávamos de trem até a Estação Santo Inácio e, de lá, nós dirigíamos a um local de difícil acesso, denominado Barroquinha, onde abundavam várias espécies de peixes de escama.
Tempos depois, comecei a freqüentar, em companhia de meu pai, do Cássio, do Gullo, do Mauro da Caixa e outros amigos, um pesqueiro conhecido pela sua piscosidade e beleza, que se situava um pico abaixo da ponte que ligava São Carlos Ribeirão Bonito.
Era um lugar repleto de corredeiras, formando vários poços e cercado de mata virgem.
Seu proprietário era o Dr. Carlos de Camargo Salles ? para os mais chegados, Carlitos Salles -, pessoa que, como já disse, era de uma notabilidade incontestável, honesto, severo, humano e de grande capacidade administrativa e política, o que lhe valeu ser eleito Prefeito de São Carlos.
Assim fui passando meus anos de infância,e guardo, daquela época,imagens e recordações inesquecíveis (..)?
Hugo Collin Ferreira